A era dos Descabeçados

Foi em 1995 que eu escrevi um conto sob o título “A era do Descabeçados”. Era um romance policial ambientado num futuro próximo e onde as pessoas começam a nascer sem cabeça, tudo funcionava normalmente, só faltava a cabeça. Nunca publiquei aliás.
O conto era uma alusão a essa mania que as pessoas tem de pensar com a cabeça dos outros. Muito já foi aventado a esse respeito, preguiça, trabalho demais, falta de tempo, falta de recursos, enfim, motivos não faltam para depositar esse trabalho de pensar em outras cabeças.
É compreensível que sejamos inclinados a agir assim porque passamos por um treinamento desde a mais tenra infância, uma espécie de adestramento onde uma pessoa que geralmente fica na frente, em uma posição de destaque, diz a um grupo mais abaixo, sentados e cabisbaixos, o que devem ou não pensar, fazer, dizer e ouvir. A escola forma milhares de caixas de leite todas iguais, ou milhares de flores coloridas e diferentes. Sendo a segunda a melhor opção, e de menor frequência.
Esse método, se replica na igreja, se replica no trabalho, se replica nos clubes, nas forças armadas (de forma inquestionável). Em todos os setores, essa hierarquia dominante é muito clara. E aliás se você fizer o mesmo será reprimido, em todos esses lugares, grupinhos de jeito nenhum.

Estamos sempre enfrentando uma relação de um para vários, o conhecimento e a experiência de um é replicada indefinidamente ao longo de anos, até formar o cidadão de opinião, com uma cadeia de valores bem definida e homogênea, preconceitos úteis e superstições. Pensante? Longe disso.

Eis a questão, ao terceirizar o trabalho da investigação, da experiência e do contato mais direto com as práticas em detrimento às teorias, temos a fórmula do “descabeçado” e se ele aceita esse papel de bom grado e confia seus caminhos e de seus queridos a essa mercê então temos um problemão. Pessoas, instituições, governos vão se aproveitar de você e irão doutriná-lo e adestrá-lo sob uma ótica estrategista e de longo prazo.

Nenhuma revolução, guerra ou massacre aconteceu sem que antes houvesse muita propaganda e violência. E para essa tarefa é que se faz uso de um bom punhado de “descabeçados”, os replicantes, irão propagar suas ideias, sem questionar, aceitarão o cerceamento de suas liberdades, a criminalização de ideias opositoras, eles irão segregar e agredir o “alvo”,  e tudo que estiver no seu caminho.

A célebre citação de Hitler, que diz que se nos apoderarmos de frações centesimais dos direitos e liberdades do povo pouco à pouco ao invés de bruta e rapidamente; eles não notarão até que seja tarde demais.

E os “descabeçados” não notarão até que seja tarde demais, a literatura é vasta a esse respeito, o cinema também, a história é rica em detalhes ao mostrar os caminhos que levam ao caos generalizado e as ideias rasas e simplistas sobre temas complexos. A história não perdoará o “descabeçado” que confia cegamente nos grupos dominantes dos quais não faz parte, mas que gostaria de fazer.

Por isso é tão fácil replicar, é simples, rápido, sem esforço, pensar sobre si, sobre os acontecimentos, ligar os pontos, inferir e criar hipóteses, confabular e refletir é coisa antiquada e em desuso atualmente. São muitas as distrações, imagina a TV, em seus primeiros dias, ainda na sala do inventor, esse olhando para o emaranhado de fios e pensando meu invento irá revolucionar a educação, permitindo que todos tenham acesso ao conhecimento. E hoje o famoso Telecurso é exibido às 5 horas da manhã, se é que ainda se exibe isso, bobagem, TV é pra distrair. Educação pra quê?

Pra não cair nas mãos de loucos psicopatas que dizem o que você gosta de ouvir. Sinta, viva a experiência, compare, leia números, faça contas, mas pense, quem é o elo mais fraco dessa corrente gigantesca? Quem em caso de emergência precisará de amparo, você ou eles? Quem vive de salário, bico, ou caridade e quem vive de super salários, pensões e aposentadorias públicas e federais, observe quem herdou a empresa, a fortuna, a fazenda. Quem tudo teve a vida inteira quer manter a coisa como está. Romper a linha da simples sobrevivência, requer um novo modo de pensar e agir, requer questionar e não confiar em tudo o que se ouve, principalmente se seu interlocutor for afiliado a alguma organização alinhada com essa agenda, e se enquadrar em um dos felizardos que sempre tiveram de tudo e que batalham por manter seus privilégios às suas custas. Você é povo! Não o banco, não a multinacional, não o STF, não o governo, não os militares e juízes.

E o povo está perdendo tudo. Ou por acaso sua vida está melhor agora?

Esse modelo de “pirâmide” serve pra isso. Pra descer a ladeira, e fazer a massa agir de acordo. Me admira muito que de repente, não mais que de repente todos estão preocupadíssimos com o futuro do país, pra mim parece que todos os abutres querem uma fatia da carniça, ou melhor a carniça toda. Nesse banquete de hienas gordas você será pisoteado rapidamente, eles não estão preocupados com emprego, economia ou desenvolvimento. Eles são uma quadrilha oriunda de grupos que se conversam e se organizam para te convencer que é para o bem do povo. Mas porque então eles não frequentam o povo? Porque então não são eles mesmos os guardiões das garantias do povo? Porque não defendem os mais fracos e necessitados como os heróis que tanto tentam imitar? Sinto dizer mas quem cumpre bem esse papel está sendo dizimado, segregado e criminalizado. Enterrar esse povo todo e fingir que ele não existe não vai ajudar em nada, vai piorar e muito.

Hoje quem incita ao ódio é incompetente e tem uma agenda que não inclui esse negócio de povo. 90% tem a ver com lucro e em manter as coisas como estão.

Você pode frequentar todos os banquetes, se vestir como eles, falar como eles, andar como eles e até cheirar como eles, porque a televisão te ensinou com seus programas e com a ajuda dos publicitários a agir como um clone. Mas você nunca será um deles, vampiros já nascem vampiros e se rodeiam de escravos obedientes depois.

Siga em paz e não vá se perder por aí.

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